Artigo completo sobre Queirã: vinhas em socalco e fumo de lenha no Dão
Freguesia de Vouzela onde o granito encontra os vinhedos e o Bestança murmura entre moinhos
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O fumo sobe direito das chaminés ao fim da tarde. Cheira a carvalho seco e a cabrito a meio assar. Na eira ao lado da minha casa, o milho ocupa o chão inteiro — cinco dias de sol e vira-se duas vezes por dia. O Bestança faz barulho de fundo, mas o que se ouve mesmo são as vacas Arouquesas a subir do pasto. São 19h30, sempre a mesma hora.
Vinhas que sobem a encosta
Queirã tem 1 227 habitantes. Apareceu em 1836 quando alguém se lembrou de desenhar freguesias no mapa. Estamos a 462 metros, entre o Caramulo e o Bestança. As vinhas crescem em socalcos desde que o meu avô era menino. O granito não facilita, mas o vinho compensa.
A Igreja de São Miguel está onde sempre esteve. À volta, casais com paredes de um metro de espessura. Mantém-se de pé porque ninguém teve pressa de os derrubar. A Rota dos Moinhos tem sete moinhos. Dois ainda moem, se a água estiver boa.
O que se come
Os rojões vêm em tigela grande — porco preto, toucinho, alho e colorau. O cabrito leva quatro horas no forno. A carne Arouquesa vem da quinta do Sr. Alfredo, 3 km acima. Nos fumeiros das cozinhas, o chouriço seca três semanas. Em setembro, montam-se mesas na rua. O pastel de Vouzala come-se quente, senão perde a graça.
Onde ir
O Trilho do Bestança são 6 km até Vouzela. Leva 2h30, menos se não parar nas azenhas. As eiras comunitárias funcionam aos fins de semana — basta aparecer com milho e ajudar a virar. A Aldeia de Xares fica a 10 minutos de carro. Tem um bar que serve café de saco e aguardente da casa.
O sino bate às 20h00. É o aviso para jantar. O fumo sobe outra vez. Amanhã há mais milho para virar.