Artigo completo sobre São Matias: Planície de Cal Branca e Silêncio Antigo
Igreja do século XVII e moinhos parados marcam a paisagem onde vivem sete pessoas por quilómetro
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O vento atravessa a planície sem encontrar resistência, levantando pó ocre dos estradões de terra batida que ligam os três lugares da freguesia. Ao fundo, junto ao horizonte recortado por oliveiras centenárias, ergue-se a silhueta branca da igreja matriz, caiada contra o azul intenso do céu alentejano. São Matias estende-se por setenta quilómetros quadrados onde vivem pouco mais de quinhentos habitantes — uma densidade de sete pessoas por quilómetro quadrado que se sente na vastidão silenciosa da paisagem.
O peso dos séculos na cal branca
A igreja de São Matias guarda nas suas paredes a memória de 1698, ano em que foi reconstruída sobre fundações góticas anteriores. A inscrição ainda visível atesta a data, mas o templo respira uma antiguidade que recua ao século XV, quando a freguesia já existia administrativamente como curato da apresentação do arcebispado de Évora. No largo fronteiro, a Fonte da Aldeia continua a marcar o centro da vida comunitária, como fazia há gerações. A alguns quilómetros, no Monte da Apariça, a Igreja Velha ergue-se solitária — templo particular da família de morgados que ali viveram no século XVII, fechada mas visível do exterior, testemunha de um tempo em que a propriedade fundiária desenhava hierarquias sociais rígidas.
Água represada e moinhos parados
A ribeira de Odearce, afluente discreto do Guadiana, corre pela margem direita da freguesia, alimentando a Barragem do Monte da Aparíça. A água represada reflecte o céu e as copas dos sobreiros do montado circundante, criando um ponto de frescura na ondulação suave da planície. Os moinhos de vento, hoje parados, pontuam a paisagem como sentinelas de pedra e cal — estruturas cilíndricas que outrora transformavam o grão de trigo em farinha, aproveitando o mesmo vento que agora só levanta poeira nos caminhos.
Caça, enchidos e o ritmo das estações
A mesa alentejana em São Matias segue o calendário da caça e do porco. Lebre, perdiz e coelho chegam da planície aos tachos, cozinhados em ensopados densos ou guisados com ervas aromáticas. O borrego, protegido pela Indicação Geográfica Protegida do Baixo Alentejo, aparece em ensopados que cozem lentamente. O porco preto dá origem ao Paio de Beja IGP, pendente nos fumeiros a curar ao longo de meses. Nas mesas mais simples, as migas com carne de porco ou a açorda de alho e coentros saciam o apetite depois do trabalho no campo. O gaspacho alentejano, frio e espesso, marca os dias de calor intenso. O Queijo Serpa DOP, de ovelha e coalho vegetal, acompanha o pão de trigo cozido em forno de lenha. O azeite — Azeite do Alentejo Interior DOP — tempera tudo, extraído das oliveiras que dominam a paisagem.
Entre o analógico e o digital
A Casa do Povo guarda miniaturas de alfaias agrícolas e cadeiras de buinho, objectos que condensam a memória material do trabalho rural. Paradoxalmente, esta freguesia de densidade mínima criou uma aplicação móvel de serviços ao cidadão disponível vinte e quatro horas — ferramenta rara entre territórios de pequena dimensão, sinal de que o despovoamento não equivale necessariamente a inércia administrativa.
Festas do santo e da senhora
A 23 de fevereiro celebra-se São Matias, padroeiro que dá nome à freguesia. No último fim de semana de julho — ou início de agosto, conforme os anos — as Festas de Nossa Senhora do Rosário trazem movimento à aldeia. Não há feiras ou romarias de grande projecção, mas o calendário litúrgico organiza o tempo numa comunidade onde os jovens até aos catorze anos somam setenta e oito, enquanto os idosos acima dos sessenta e cinco chegam a cento e onze.
O sol poente alonga as sombras dos moinhos sobre os olivais. Ao longe, um tractor levanta uma nuvem de pó que se dissolve lentamente no ar parado. O silêncio não é ausência — é presença dilatada, textura que se sente na pele quando se percorrem os estradões entre São Matias e o Monte da Apariça, quilómetros onde o único som é o ranger das botas na terra seca e o canto distante de uma perdiz escondida entre pedras.





