Artigo completo sobre Este (São Pedro e São Mamede): onde o vale encontra Braga
Freguesia a 5 km de Braga preserva rotas de Santiago, vinhas em socalcos e tradições minotas vivas
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A luz da manhã demora-se nas videiras, mas é o cheiro a pão de milho acabado de sair — aquele que só se faz no forno a lenha — que te diz que já és tarde. No vale, o Rio Este leva a água que corre há séculos, mas o que marca mesmo as horas é o sino da Igreja de São Pedro: oito badaladas que até o cão do Largo do Cruzeiro já sabe de cor. Estás a cinco quilómetros de Braga, sim, mas pareces a dois tempos. Três caminhos de Santiago cruzam-se aqui em cima; os peregrinos chegam cansados, olham para o GPS, depois para a vinha, e percebem que afinal ainda não chegaram a lado nenhum. Tudo bem — é assim que se entra na União de Este.
Entre a cidade e a vinha
A junta de freguesia nasceu em 2013, mas a alma é mais antiga que o foral de 1258. Ninguém sabe ao certo de onde vem o nome “Este”; uns dizem que é porque fica “a este” de Braga, outros juram que houve um tal senhor Esteves que andou por cá. A Igreja Matriz de São Pedro é o que temos de mais sólido — românico no corpo, manias barrocas por dentro, e um campanário que já viu franceses, ingleses e agora alemães de mochila às costas. Do lado de fora, os brasões nas portas já não se leem, mas ainda se adivinha que havia gente com sobrenome e nota. As casas de granito aguentam-se como podem: umas recuperadas por gente de fora que veio procurar sossego, outras a aguentar telhados que só não caem por milagre.
No alto, a Capela de São Vicente é o nosso miradouro. Subir lá em cima é o que faz quem quer perder o fôlego e ganhar uma vista. A romaria é no primeiro domingo de setembro: sobe-se a pé, desce-se de barriga cheia. Há chouriça, há caldo, há vinho verde que não perdoa. Em junho, São João é na rua: juntam-se umas mesas de xadrez improvisadas, acende-se a fogueira com pinho seco e vai-se à noite dentro até o orvalho mandar para casa.
Sabor a terra vermelha
O cabrito vai ao forno de carvalho e sai com a pele estaladiça — não é para vegetarianos, nem para quem tem colesterol. O arroz de sarrabulho é preto como tinta da China e leva o sangue do porco que ontem ainda rosnava; come-se com colher de pau e nem pensar em pedir “sem gordura”. Os rojões são o que sobra do porco: tudo o que não deu para fazer presunto vai para a frigideira com colorau e um nadinha de cominhos. E depois há as papas de sarrabulho, que é como quem diz: “Hoje não há prato do dia, há penico do fundo da lareira.”
Para adoçar, os doces vieram dos conventos: toucinho-do-céu que não leva toucinho (mas leva manteiga, ovos e açúcar a rodos) e cavacas que partem os dentes se não forem molhadas no café. O pão de milho é obrigatório — se não houver, a sogra estranha. O azeite é caseiro, de oliveira centenária que ainda não ouviu falar de agricultura intensiva.
Caminhar entre peregrinos
Os caminhos são muros de pedra solta e lama quando chove. Quando o sol bate, cheira a alecrim e a laranja que cai no chão e ninguém apanha. A serra do Gerês fica lá ao fundo, como moldura. No meio do percurso há sempre uma banca de fruta com um tabuleiro de notas de cinco euros e a confiança de que ninguém leva troco. Quem sobe ao Cruzeiro de São Lázaro vê Braga toda espalhada, mas não ouve um carro — só o vento e o cão do Sr. Albano que ladra para o vento.
A vindima é em setembro: quem tem uva mete a família a trabalhar e paga em espécie — um garrafão para cada dia. A azeitona apanha-se em novembro, de saco às costas e luvas furadas. Quando o sino toca outra vez, já são seis horas e ainda há quem esteja no campo. A mulher que varre o adro é a D. Idalina: já varreu netos e agora varre folhas. O cão é o Bobi — dorme onde apanha sol e só se mexe se for para a taberna atrás do dono.