Artigo completo sobre Caniçada e Soengas: onde a albufeira redesenhou o vale
Entre a água da barragem e os caminhos de xisto que ligam as aldeias de Vieira do Minho
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O som chega antes da imagem: o bater surdo de uma porta de madeira contra a ombreira de granito, o murmúrio constante da água contra as margens da albufeira, o sino da igreja matriz que ecoa entre os montes e se perde na espessura verde das encostas. Em Caniçada e Soengas, a paisagem organiza-se em camadas — o vale onde a água da barragem espelha o céu, as aldeias que sobem a meia-encosta entre os 200 e os 600 metros, e no topo, o xisto escuro dos caminhos antigos que ainda ligam Assento a Barbedo, Cibrão a Fagilde, Outeiro a São Miguel.
A albufeira da Caniçada, inaugurada em 1954, redesenhou o território. Onde antes corria livre o rio Cávado, estende-se agora um reservatório que funciona como fronteira líquida entre Vieira do Minho e Terras de Bouro. A central hidroelétrica adjacente produz energia, mas o que se sente à beira de água não é a engenharia — é o voo rasante das garças, o reflexo invertido dos carvalhos na margem, o silêncio denso que só a água parada consegue impor. Nos dias sem vento, os caiaques deslizam sem esforço e deixam atrás de si uma linha efémera que logo se fecha.
Entre o granito e a cal
A Igreja matriz de São Mamede ergue-se no centro de Caniçada desde o século XIII, referenciada nas Inquirições de 1220 como «De Sancto Thome de Canizada». As remodelações setecentistas cobriram de cal branca as paredes de pedra, mas o portal mantém a sobriedade medieval. Em 1758 existiam três ermidas — São Miguel, São João Batista e Nossa Senhora da Glória — que serviam os lugares dispersos pela encosta. A Capela Mortuária, recentemente requalificada, guarda nas paredes interiores a humidade fria do granito nunca completamente seco.
Fora da vila, o território organiza-se em núcleos minúsculos — Sanganhos, Salgueiro, Rechã, Rego, Toucedo, Vale Mau. Entre eles, caminhos calcetados sobem e descem sem pressa, ladeados por muros de pedra solta onde cresce o musgo e a hera se enrosca nas juntas. O Caminho do Arijal liga Caniçada a São Miguel através de lameiros e bosques de carvalho, passando por eiras abandonadas e espigueiros de granito com as portas carcomidas pelo tempo. No Inverno, o nevoeiro enche os vales e deixa visíveis apenas os topos das árvores e as cumeeiras das casas.
O sabor das serras
A Carne Barrosã DOP chega à brasa ou ao forno de lenha, com a gordura entremeada a derreter devagar e a deixar na grelha um cheiro denso a fumo e sal. Os rojões à minhota vêm acompanhados de batata cozida e colorau, o sarrabulho ferve ao lume em panelas de ferro, o cabrito assa horas a fio até a pele estalar. O caldo verde leva chouriço de carne de Barrosã cortado em rodelas finas, e o pão de milho ainda quente esfuma sobre a mesa.
Nas quintas dispersas pela encosta produz-se vinho verde de lote pequeno, aguardente de medronho e licor de erva-príncipe. O Mel das Terras Altas do Minho DOP tem cor âmbar e textura espessa, cristaliza devagar e guarda o perfume das urzes e dos castanheiros. Nas casas mais antigas, ainda se faz doce de abóbora e de tomate em tachos de cobre, e o bolo de São Martinho leva castanha pilada e açúcar mascavado.
Festas que sobem ao monte
Quatro festas marianas pontuam o calendário da freguesia: Senhora D'Orada, Senhora da Fé, Senhora da Lapa e Senhora da Conceição. Em cada uma, a procissão sobe devagar pelas ruas calcetadas, os andores balançam ao ritmo dos passos, as vozes das mulheres erguem-se em cânticos que ecoam entre as casas. À noite, os arraiais estendem-se pela praça com sardinha assada, vinho verde e música pimba que se ouve até tarde. No Inverno, os grupos de Reis ensaiam para o Encontro Municipal de Reisadas, e os cantares ao desafio voltam a encher os serões nas tabernas de granito.
A Praia Fluvial do Canedo, junto à albufeira, enche de famílias nos dias de calor. A água fria do Cávado arrepia a pele, mas o sol bate forte nas pedras da margem e aquece depressa. Ao fim da tarde, quando as sombras se estendem e os banhistas regressam, os milhafres voltam a planar sobre a água em círculos largos, à procura de peixe à superfície. O eco do sino de São Mamede chega até aqui, abafado pela distância e pelo murmúrio constante da albufeira contra a margem de cimento.