Artigo completo sobre Cantelães: cinco capelas e moinhos junto à ribeira
Entre romarias centenárias e engenhos de água, a freguesia preserva tradições no vale do Minho
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A água bate nas pás de madeira do moinho antes de escorrer de volta à Ribeira de Cantelães. O som repete-se como um relógio entre paredes de granito. A 631 metros de altitude, o vale fecha-se em anfiteatro verde — pinhais, carvalhais e soutos sobem pelas encostas. Os lameiros desenham rectângulos de um verde mais claro junto ao leito da ribeira. O granito está em todo o lado: nos cruzeiros dos adros, nos espigueiros que pontuam as eiras, nas fontes lavradeiras onde ainda se lava roupa à mão nas manhãs de sábado.
Cinco capelas, cinco devoções
A capela da Senhora d'Orada é Monumento Nacional desde 1910. Tem uma Virgem do século XIV, trazida por peregrinos de Santiago. A madeira escura confirma a idade. As outras quatro capelas — Senhora da Fé, Senhora da Lapa, Senhora da Conceição — espalham-se pela freguesia. Cada uma tem a sua romaria: Senhora d'Orada no último domingo de agosto, Senhora da Fé em setembro, Senhora da Lapa em fevereiro.
As procissões sobem caminhos de terra batida. À noite, fogueiras iluminam os adros. Serve-se sopa de milho com feijão em tigelas de barro. O bailarico só acaba quando o acordeão se cansa.
O caminho da água e da pedra
O trilho dos Moinhos liga cinco engenhos restaurados ao longo de quatro quilómetros. Acompanha a Ribeira de Cantelães e os seus afluentes — Ribeiro do Cortiço, Ribeiro da Parada, Ribeiro de Meães. Os nomes são pré-românicos. O trilho sobe e desce entre muros de xisto, atravessa pontes de laje única, passa por eiras comunitárias onde o milho seca ao sol de setembro.
Do miradouro de Cimo da Vila, vê-se o vale do Cávado e o Gerês. A paisagem é serranheira minhota — recortada, íngreme, desenhada por séculos de trabalho humano que transformou encostas em socalcos cultiváveis.
Caldo verde e carne Barrosã
A cozinha de Cantelães apoia-se no forno de lenha e na chouriça fumada. O caldo verde leva carne Barrosã DOP cortada em pedaços que desmancham na boca. Os rojões à minhota nadam em banha temperada com colorau. O cabrito assa lentamente até a pele estalar.
Nas romarias aparecem papas de sarrabulho e formigos — rabanadas de pão de milho embebidas em vinho e açúcar. O mel das Terras Altas do Minho DOP tem cor âmbar e travo a urze. O vinho verde da sub-região de Vale do Ave é servido fresco, ligeiramente efervescente. À sobremesa, aguardente de medronho ou licor de ervas da Cabreira.
Onde o vale se estreita
A Ribeira de Cantelães é um dos últimos cursos de água do Minho onde ainda se lança a tarrafa. A rede circular voa no ar antes de cair sobre a corrente. Os braços puxam-na de volta com movimentos aprendidos na infância.
Entre muros de xisto, existe o mais pequeno campo de futebol de sete do distrito de Braga. A bola sai de jogo a cada três passes.
A tarde cai devagar sobre os lameiros. O som da água domina o vale. Nas janelas das casas de granito acendem-se as primeiras luzes. O fumo das lareiras sobe direito no ar parado de outubro.