Artigo completo sobre Guilhofrei: onde o granito guarda a memória do Minho
Freguesia serrana de Vieira do Minho entre vinhas, fumeiros e festas da Senhora D'Orada
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da igreja bate doze vezes e o som apanha de surpresa: primeiro é seco, depois faz-se corpo e rola pela encosta abaixo como se fosse pedra solta. Em Guilhofrei, a 352 metros de altitude, o granito das paredes está quente à luz do meio-dia — se lhe chegares a mão, sentes o pulso do sol acumulado — mas o ar que sobe do vale ainda traz o frescor da erva pisada e uma fumaça de lenha húmida que alguém acabou de atirar para a lareira.
Nas ruas estreitas o silêncio é tão denso que se ouve o relógio de pulso do Sr. Zeca, que está à porta de casa com o capote às costas, à espera que o filho desça da horta. Do outro lado do souto soa um tractor, mas é longe, abafado, como se trabalhasse debaixo de água.
A terra e os frutos que ela dá
As vinhas não fazem “linhas geométricas” — fazem ziguezagues para aproveitar cada palmo que o granito deixa livre. A casta é loureiro, sobretudo; depois vem o trajadura para dar acidez. Quando a uva está madura, a rapaziada vem dos estudios em Braga para ajudar a vindimar: pagam-se 40 euros ao dia, comes duas vezes e levas garrafas para casa. O vinho sai tão leve que quase não tem cor, mas o cheiro a maçã verde fica-lhe na boca dias seguidos.
O mel é outro assunto. Não é “espesso e âmbar” — é escuro, quase negro, e custa a virar quando viras o pote. O cheiro é de esteva molhada e de resina de pinheiro; na boca, perdura um amargo que os ingleses acham “medicinal” e aqui se chama simplesmente “serrano”. O Miguel, que tem colmeias em cima da aldeia, diz que as abelhas andam a 3 km de raio e que, se lhe pagarem antecipadamente, marca visitas: leva o arnês, abre uma colmeia e deixa os turistas provar o mel com pão de unto ainda quente.
Na chouriça o segredo é o vento: há-de vir do norte, seco, para não criar bolor. O porco é morto em Janeiro; a carne fica a escorrer no celeiro até Maio, quando se decide se vai para chouriça, para febras ou para o fumeiro que o Sr. Albano guarda trancado a sete chaves porque “as moscas têm olho de raio-x”.
As festas não são “muitas” — são quatro, mas cada uma ocupa três dias e começa na vespera com o badalo ao contrário (doze badalos para trás, para avisar que a próxima semana é de ninguém). Na Senhora d’Orada faz-se procissão com flores de papel de seda que as crianças vão buscar à loja da Cotovia; na Conceição é obrigatório o bacalhau com todos, mesmo que chova granizo. Quando os foguetes sobem, o cão do Padre António esconde-se dentro do confessionário e só sai quando o cheiro a pólvora já se foi.
O peso dos anos que ficam
Dizem 271 velhos para 89 crianças, mas os números não explicam que a escola tem apenas sete alunos e que, mesmo assim, ainda se ouve “Ó menina!” quando a mais nova passa com a mochila maior do que ela. O combinado é assim: quem se licencia volta para os fins-de-semana; quem não volta manda a avó embalar o pão de ló por correio azul.
Há cinco casas para turistas, mas não estão no Booking — estão no Word-of-mouth, que é como quem diz: a D. Rosa telefona ao café e pergunta se a casa da cangosta está livre. Aceita-se dinheiro vivo, deixa-se o recibo no próprio livro de receitas. Não há wi-fi, mas o sinal da Vodafone pega no topo do muro da igreja: é ali que os alemães fazem chamadas de vídeo para mostrar o granito e as vacas barrosãs que, de resto, só se mexem quando lhes chega a hora de descer ao bebedouro.
A gastronomia não precisa de espetáculo: o cozido leva couve da horta, a abóbora é a que sobrou do Diário de Notícias, e o toucinho fica na panela até derreter e fazer espuma cor de marfim. O único prato que leva nome é o “caldo canas” — dizem que foi inventado por um cego que confundiu a hortelã com o curral, mas o resultado soube-lhe bem e hoje é servido na noite de Natal com broa de milho estaladiça.
Quando a noite cai, as luzes acendem-se uma a uma, não por automatismo mas porque alguém acabou de empurrar o interruptor com o cotovelo enquanto traz a loiça da jantar. O fumo sobe direito, faz uma fina linha branca que se perde contra o céu estrelado — e é assim que se percebe que a aldeia ainda respira: pelas colunas de fumo que sobem, teimosas, contra o frio que se instala.