Artigo completo sobre Tabuaças: vinhas de altitude e quatro festas marianas
Entre encostas graníticas a 565 metros, a freguesia vive ao ritmo das vindimas e romarias de Verão
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O sino da igreja marca as horas como quem não tem pressa. A estrada sobe, o ar fica mais fresco e, aos 565 metros, cheira a terra molhada e a fogo de sala. Tabuaças não é sítio para quem gosta de plano; é um anfiteatro de granito onde as casas se agarram às encostas e as vinhas parecem escadas para o céu.
Moram aqui 887 pessoas, o que dá para duas equipas de futebol e um árbitro, como diz o Zé Mário do café. Na terça-feira parecem menos: as crianças vão para Braga, os velhos ficam nos portais a discutir se o inverno vem cedo ou tarde. Ainda assim, cada casa tem o seu naco de terra, o seu fumeiro, a sua vinha — “o essencial para não morrer à fome nem à sede”, resume a Dona Amélia, que conta 84 invernos e 63 colheitas.
Festas que ainda cabem na aldeia
Quatro senhoras dão cartaz: D’Orada, Fé, Lapa e Conceição. Cada uma na sua ermida, cada uma com a sua confraria e o seu almoço de domingo. Em agosto, os emigrantes enchem as malas de bifanas e de saudade; as aldeias ganham música alta e cheiram a carne barrosã na brasa. Quem não tem parente estrangeiro arranja um primo em Paris para justificar a presença. A verdade é que as cadeiras de plástico cor de Rosa são sempre as mesmas, só mudam os rabos.
Vinho que pica e mel que agarra
A altitude não perdoa: as uvas suam para amadurecer, mas o resultado é um vinho verde com dentes — corta a gordura do fumeiro e faz esquecer a ressaca do dia anterior. As vinhas são tão pequenas que o mapa parece um quebra-cabeças; trabalha-se de joelhos, colhe-se de saco às costas. O mel é outra história: denso como mentira de político, cheira a urze e a castanheiro. Quem leva um pote para casa mais tarde ou mais cedo regressa — é o efeito doçura-curril.
Onde dormir sem ser no sofá da tia
Dezassete casas recebem quem não tem família ou quem prefere não incomodar. Nenhuma tem televisão de 60 polegadas, mas todas têm lenha seca e vista para a serra. Não há receção 24h; a chave entrega-se no café ou na padaria, junto com a recomendação: “Se ouvir cães à noite, é normal. São os da aldeia, não mordem, só ladram para o eco.”
O que se faz aqui é caminhar até à Lapa, comprar ovos à porta do vizinho, ver a geada desenhar tapetes nas couves. Não há filtros para isto; o instagram que se safe. Ao entardecer, o nevoeiro sobe da barriga do vale e o fumo das chaminés desce-lhe ao encontro. Ficam os dois a conversar até a noite fechar.