Artigo completo sobre Ventosa e Cova: onde o sino marca o tempo da montanha
Duas aldeias a 611 metros de altitude, entre festas marianas, Carne Barrosã e fumeiros tradicionais
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O sino toca ao meio-dia e o som propaga-se pela encosta, ricocheteando entre vales de xisto e carvalhos. A 611 metros de altitude, o ar chega frio e limpo aos pulmões, mesmo quando o sol de Julho aquece o granito das soleiras. Ventosa e Cova, unidas administrativamente em 2013 mas distintas na memória dos que aqui vivem, são 577 almas distribuídas por nove quilómetros quadrados de montanha minhota — território onde a verticalidade do terreno define o ritmo das coisas.
O calendário das invocações
A fé organiza o tempo nestas aldeias. Quatro festas marianas pontuam o ano: Senhora D'Orada (último domingo de Maio, em Cova), Senhora da Fé (primeiro domingo de Junho, em Ventosa), Senhora da Lapa (primeiro domingo de Agosto, em Ventosa) e Senhora da Conceição (8 de Dezembro, na igreja matriz de Ventosa). Não são romarias turísticas — são compromissos comunitários onde se juntam as 174 pessoas com mais de 65 anos e as 61 crianças que ainda correm nos adros. Os andores sobem caminhos empedrados construídos pelas Comissões de Melhoramentos nas décadas de 1960-70, as mulheres enfeitam os nichos com flores de papel crepom vindas da papelaria Costa em Vieira do Minho, e à noite as filarmónicas locais - a Banda de Ventosa fundada em 1887 - enchem o ar de marchas como "A Minha Aldeia" que ecoam até às cumeadas. O cheiro a chouriço assado mistura-se com o incenso da Igreja de São Vicente de Ventosa, construída em 1723, e as mesas compridas estendem-se sob os carvalhos-centenários do adro.
Sabor certificado da montanha
A Carne Barrosã DOP pasta nestes montes desde que o abate municipal se instalou em Vieira do Minho em 1952. As 52 explorações agrícolas do concelho movem-se devagar pelos lameiros a 600-800 metros de altitude, alimentando-se de pastagens permanentes onde dominam o trébol subterrâneo e a festuca. Nos fumeiros das casas em xisto, pendem presuntos que curam 18-24 meses ao ritmo das correntes de ar frio que descem do Gerês - a 15 km de distância. O Mel das Terras Altas do Minho DOP, produzido pelos 6 apicultores registados na freguesia, nasce da floração tardia destas encostas - urze (Calluna vulgaris) em Agosto-Setembro, castanheiro (Castanea sativa) em Junho-Julho, carqueja (Genista tridentata) em Abril-Maio - e tem cor âmbar escura, quase avermelhada, com travo intenso a montanha.
A região dos Vinhos Verdes estende-se até aqui, mas a altitude muda tudo. As videiras de Loureiro e Azal sofrem mais, amadurecem três semanas depois do vale, e o vinho que daqui sai - cerca de 500 garrafas anuais da Adega Cooperativa de Vieira do Minho - tem acidez cortante (7-8 g/l) e 9-10% vol. É vinho de quem conhece o frio das noites de Agosto a 15°C.
Sessenta e oito portas abertas
Os dados do Registo Nacional de Alojamento Local registam 68 AL na freguesia desde 2018 - moradias em xisto recuperadas com apoios do PRODER (2007-2013) que funcionam como base para quem explora o território mais vasto de Vieira do Minho. Não há multidões: a densidade de 66 habitantes por quilómetro quadrado garante silêncio e espaço. A Trilhos dos Currais (12 km, dificuldade média) liga Cova a Tourém com 350 metros de desnível. A estrada municipal EM 568 sobe 8 km desde a N311 até Ventosa com rampas de 12%. É território para quem procura caminhadas sem pressa, estradas secundárias e conversas à porta das mercearias - a última, o Café Central em Ventosa, abre às 7h para o café com aguardente.
A altitude faz-se sentir nas manhãs de Inverno, quando o nevoeiro sobe do vale do Rabagão e transforma as aldeias em ilhas suspensas acima dos 500 metros. No Verão, a mesma altitude oferece alívio - noites frescas a 16°C, orvalho denso que molha os sapatos às 6h da manhã, o som amplificado dos grilos nas pastagens abandonadas desde 1990.
A aritmética do abandono e da resistência
Dos 577 residentes (Censos 2021), 30% tem mais de 65 anos contra 10,6% com menos de 15 anos. A maioria tem cabelo grisalho - os órfãos da emigração para Paris e Lyon nas décadas de 1960-80. Mas as 61 crianças ainda enchem a EB1 de Ventosa construída em 1958 com 40 alunos em 2023/24, ainda sujam os joelhos na terra dos caminhos que levam 45 minutos a percorrer 2 km. A freguesia resiste, não com euforia, mas com teimosia. As 42 hortas registadas na Junta continuam a ser mondadas em Maio, os muros de xisto reconstruídos pedra a pedra nas jornadas de trabalho comunitário de Outubro, as festas preparadas com meses de antecedência pela Comissão de Festas eleita em Janeiro.
Ao anoitecer, as luzes acendem-se devagar nas 250 casas dispersas pela encosta - 35% delas ocupadas apenas nos fins-de-semana. O fumo sobe direito das chaminés quando não há vento, torce-se quando sopra o nortada de 15-20 km/h vinda do Gerês. E o frio — esse companheiro constante a 611 metros — aperta-se contra as portas de madeira de castanho com 5 cm de espessura, lembrando que aqui o conforto nunca foi dado: é conquistado, dia após dia, com 6 metros cúbicos de lenha de carvalho e castanho, camisolas de lã da fábrica de Cabeceiras de Basto e persistência que vem de trás dos tempos dos Brandões e Andrades que aqui se estabeleceram no século XVI.