Artigo completo sobre Almalaguês: onde três caminhos de Santiago se cruzam
Freguesia de peregrinação a 15 km de Coimbra, entre olivais, ribeiro e o murmúrio do Paul de Arzila
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O canto do galo rasga o silêncio da manhã antes mesmo de o sol roçar os telhados de telha. No Largo da Igreja, os passos ecoam na calçada molhada pelo orvalho, e o cheiro a lenha queimada escapa das chaminés onde ferve a água do café. Almalaguês acorda devagar — ao ritmo do ribeiro que serpenteia entre os olivais e do vento que traz o murmúrio distante das aves do Paul de Arzila. A quinze quilómetros de Coimbra, o vale de xistos e arenitos guarda um quotidiano que não se deixa apressar.
A vieira na pedra
Três caminhos de peregrinação convergem no adro da Igreja Matriz de São Pedro: o Central Português, o de Torres e o de Fátima. No marco de pedra gravado com a vieira, os caminhantes param para encher as cantis na fonte e descansar à sombra dos plátanos antes de seguirem para norte. A igreja setecentista, de fachada caiada e portal em cantaria, guarda no interior um retábulo barroco dourado e painéis de azulejo do século XVIII onde São Pedro segura as chaves do céu com a solenidade de quem nunca deixou de vigiar este vale. No adro, o cruzeiro de 1782 ergue-se entre canteiros de hortênsias que as mulheres regam ao fim da tarde.
A poucos passos, na antiga casa do sacristão, funciona um pequeno núcleo museológico onde se expõem paramentos litúrgicos bordados a ouro e fotografias sépia de procissões que enchiam o largo até à década de 1960. É aqui que se percebe o peso de São Pedro na vida da freguesia: a festa de 29 de Junho ainda faz parar as vindimas e enche o arraial de música ao vivo, bailarico e o cheiro inconfundível a chouriça assada.
O vale que alimenta
A cozinha de Almalaguês nasce da terra e do ribeiro. O cabrito assa em fornos de lenha alimentados com madeira de oliveira, e a chanfana estala no tacho de barro, a cabra estufada em vinho tinto da Bairrada até desmanchar-se ao garfo. Nas casas mais antigas, o arroz de enguias do Ribeiro de Almalaguês continua a ser prato de domingo, cozinhado devagar com coentros e alho. Na Padaria da Corredoura, o pastel de Almalaguês — folhado recheado com doce de gila — sai ainda quente do forno a meio da manhã, e as trouxas de ovos repousam nas prateleiras ao lado das cavacas de canela.
A Adega Cooperativa de Coimbra tem aqui a sua sede, num edifício baixo de tijolo vermelho onde se provam brancos leves e espumantes da Região Demarcada da Bairrada. Nas prateleiras da mercearia local, o Queijo Serra da Estrela divide espaço com o Requeijão, a Carne Marinhoa e o Mel da Serra da Lousã — produtos com denominação de origem que chegam às mesas de Almalaguês como se sempre aqui tivessem nascido.
O Paul e os caminhos da água
A norte da freguesia, a paisagem muda de tom. O Ribeiro de Almalaguês alarga-se em levadas e açudes que alimentam a Reserva Natural do Paul de Arzila, zona húmida onde as garças-reais pousam nos juncais e o guarda-rios risca a água em voos rasantes. O Percurso da Senhora da Alegria, três quilómetros entre olivais centenários e bosques de carvalho-alvarinho, conduz até à ermida onde a romaria de Maio ainda atrai peregrinos de Coimbra e da Lousã. Mais longo, o Caminho do Paul liga a freguesia ao centro de interpretação da reserva, passando por sobreiros de tronco retorcido e pinhais onde o silêncio só é interrompido pelo canto dos melros.
No Bairro do Moinho de Vento, o antigo moinho convertido em miradouro oferece a melhor vista sobre o vale do Mondego e, ao longe, o perfil azulado da Serra da Lousã. É aqui que os ciclistas param para respirar antes de descerem a estrada municipal até Condeixa, e onde os vindimadores se sentam à sombra para beber água fresca de caldeiros de cortiça — tradição que resiste ao plástico e ao metal.
O som da terra
Quando Junho chega e os campos amarecem com o trigo maduro, os Romeiros de Almalaguês ensaiam no Largo da Igreja as cantigas que vão entoar na procissão de São Pedro. As vozes graves misturam-se com o repicar dos sinos e o arrastar das cadeiras que os homens trazem de casa para o arraial. Ao anoitecer, o cheiro a sardinha assada sobe pelas ruas estreitas e mistura-se com o fumo das fogueiras. É nesse momento — quando a luz rasante dá à cal das paredes um tom dourado e os primeiros acordeões começam a tocar — que Almalaguês revela o que sempre foi: um lugar onde o ribeiro, a vinha e a fé continuam a marcar o compasso dos dias.