Artigo completo sobre São Martinho do Bispo: onde o Mondego molda a terra
Freguesia rural a poucos quilómetros de Coimbra, entre vinhas da Bairrada e olivais centenários
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O cheiro a terra húmida chega primeiro. Antes de qualquer marco quilométrico, antes do sinal de trânsito que anuncia São Martinho do Bispo, é a humidade do vale — essa condensação vegetal que sobe dos campos baixos junto ao Mondego — que avisa o corpo de que se entrou noutro ritmo. A estrada desce suavemente, porque aqui tudo é suave: a altitude média mal ultrapassa os trinta metros, os terrenos ondulam sem pressa, e as vinhas da Bairrada estendem-se em fileiras que acompanham a curvatura da luz da manhã. A poucos quilómetros da Alta universitária de Coimbra, património mundial da UNESCO, esta união de freguesias funciona como uma espécie de antecâmara rural — um lugar onde a cidade se dissolve em olivais e pomares sem que se perceba exactamente o momento da transição.
Duas raízes, uma só margem
A União das freguesias de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades existe formalmente desde 2013, mas as suas raízes mergulham em camadas muito mais antigas. A primeira referência documental a São Martinho data de 1130, quando a Igreja de São Martinho foi doada à Sé de Coimbra — um gesto que fixou no mapa um topónimo ligado a São Martinho de Tours, o bispo que a devoção medieval espalhou por toda a Península. Ribeira de Frades, por seu lado, guarda vestígios do período romano no subsolo, e o seu nome denuncia a dupla identidade que a moldou: os ribeiros que cortam a paisagem e as propriedades religiosas que ali se implantaram. Hoje, as duas localidades fundem-se com Bencanta — onde se encontra a sede da junta de freguesia, uma das povoações mais antigas da região —, Covões, Espírito Santo das Touregas e Pé-de-Cão, num território de quase dois mil e quinhentos hectares onde vivem mais de quinze mil pessoas.
Talha dourada e pedra setecentista
A Igreja Matriz de São Martinho do Bispo impõe-se pelo interior barroco: o retábulo principal, revestido de talha dourada, captura a pouca luz que entra pelas janelas laterais e multiplica-a em reflexos quentes, âmbar e ocre, que parecem aquecer a nave mesmo nos dias de Inverno em que o nevoeiro do Mondego se cola às paredes exteriores. É um dos monumentos classificados como Imóvel de Interesse Público desde 1982, e merece o silêncio demorado que exige. Em Ribeira de Frades, a Capela de São Frutuoso oferece um registo diferente — elementos arquitectónicos setecentistas, mais contidos, onde a cal branca e a cantaria dialogam sem exuberância. Entre as duas, a ponte medieval sobre o Ribeiro de Frades subsiste como testemunho físico da antiga via que ligava Coimbra às zonas rurais circundantes. Os seus arcos de pedra, cobertos de musgo nos meses chuvosos, ainda suportam o peso de quem atravessa a pé, e o som da água a correr por baixo — constante, discreto — é talvez o som mais antigo que se pode ouvir nesta freguesia.
Três caminhos, uma só direcção
Há um pormenor que escapa a muitos: esta freguesia é atravessada por três caminhos de Santiago — o Caminho Central Português, o Caminho de Torres e o Caminho de Fátima. Três traçados distintos que convergem neste vale como veias num mesmo corpo. Para os peregrinos que passam, São Martinho do Bispo é uma paragem que convida à lentidão, com capelas rurais onde se pode sentar num banco de pedra fria e deixar os pés descansar. A planície, aqui, não é monotonia — é alívio. Depois das serras que ficam para trás ou para a frente, caminhar a trinta metros de altitude, entre vinhas e oliveiras, com o rio a adivinhar-se por detrás de uma cortina de choupos, tem o efeito de um suspiro longo.
O leitão, a chanfana e a massa translúcida dos pastéis
A gastronomia desta zona é de uma honestidade rural que não precisa de adornos. A chanfana — carne de cabra cozinhada lentamente em vinho tinto da Bairrada, dentro de caçoilas de barro negro — é um prato que se cheira antes de se ver, porque o aroma a vinho reduzido e louro percorre as ruas estreitas ao meio-dia. O leitão da Bairrada, com a pele estaladiça e dourada, e o ensopado de enguias do Mondego completam uma mesa que reflecte a geografia exacta do lugar: o rio, o campo, a vinha. Nos cafés de Bencanta, a meio da tarde, ainda se servem pastéis de Tentúgal frescos — produto com Indicação Geográfica Protegida desde 2006, camadas de massa quase translúcida envolvendo um creme de ovos que se desfaz na boca. Juntam-se-lhes outros produtos de denominação protegida amplamente consumidos na região: o Queijo Serra da Estrela DOP, a Carne Marinhoa DOP, o Mel da Serra da Lousã DOP. A vinha da Bairrada, entretanto, dá espumantes e tintos que acompanham tudo isto com a acidez certa.
O paul onde os flamingos param
A sudoeste, a Reserva Natural do Paul de Arzila estende-se como uma mancha verde e líquida no horizonte. Esta zona húmida, classificada como Ramsar em 2005, é habitada por garças-reais que se mantêm imóveis entre os juncos, e visitada sazonalmente por flamingos cuja silhueta cor-de-rosa parece um erro de paleta nesta paisagem de verdes e castanhos. Os trilhos pedestres que percorrem o paul permitem uma imersão lenta — o chão é mole, o ar cheira a vegetação em decomposição, e o silêncio é pontuado apenas pelo bater de asas súbito de uma ave que levanta voo. A Escola Superior Agrária de Coimbra, fundada em 1887 e uma das mais antigas instituições de ensino agrário do país, fica também na freguesia, e o seu jardim botânico oferece outro tipo de passeio — mais ordenado, mais didáctico, mas igualmente verde.
O som debaixo da ponte
Quem se despede desta freguesia leva consigo um som específico: o murmúrio da água sob os arcos da ponte medieval de Ribeira de Frades, esse fio contínuo que já corria quando os romanos pisaram este vale e que continua a correr agora, indiferente aos séculos, às fusões administrativas, aos peregrinos que passam. É um som pequeno — quase nada. Mas é exactamente esse quase nada que, depois de um dia a percorrer estes campos baixos e férteis, se instala no ouvido e recusa sair.





