Artigo completo sobre Carnide: onde o granito guarda memórias agrícolas
Freguesia de Pombal com pomares DOP, caminhos de Santiago e paisagem rural autêntica
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O granito das casas — aquele cinzento que só existe aqui — guarda o sol como quem guarda um segredo. Às cinco da tarde, ainda está quente. Carnide é isso: uma aldeia que se agarra a um monte de cem metros e não larga. Olha-se para o campo e vê-se terra a preparar-se para a sementeira, argila que se parte em pedaços como pão velho. O silêncio é tão grande que se ouve o cão do Zé Manel a ladrar na Tapada — e a Tapada fica a dois quilómetros.
Terra de pedra e pêra
Dois mil hectares, dizem os papéis. Na prática, é isto: olhar e não ver fim. Mil e seiscentos e vinte e dois habitantes, mas na taberna só cabem dez. O resto está nas casas espalhadas, onde ainda se faz lume com lenha de azinho. A pêra rocha é mesmo nossa — vai daqui à Lourinhã, mas a melhor é esta, a que o Tonio deixa no chão até Setembro para o açúcar subir. O queijo rabaçal vem lá de cima, das serras, mas cá se come com pão de milho e um golo de tinto da Talha. Azeite do Ribatejo é o que se põe na salada — o nosso é bom, mas o outro tem nome mais comprido.
O caminho dos peregrinos
Passam aqui os do Caminho da Costa e os de Torres. Vão-se perdendo na estrada municipal, depois aparecem na curva da Igreja. Pedem água, alguns querem café. A D. Fernanda dá-lhes na bica e pergunta de onde vêm. A seta amarela está pintada na parede do Celestino, que não gosta mas deixa porque é para os santos. Ninguém fica. É direito a Santiago, como quem vai ao cabeleireiro em Pombal — tem de ser.
Pedra que conta histórias
A pedreira do Avelino é aquilo que resta de quando se tirava pedra para fazer estradas. Agora é monumento natural, o que quer dizer que ninguém toca mais nela. As camadas de calcário são como as anéis das árvores: contam o tempo que ninguém viveu. Leva-se os miúdos lá no Domingo, dizem-lhes que aquilo tem milhões de anos e eles olham para trás a ver se a mãe está a ver o mesmo.
Bodo e tradição
O Bodo é em Pombal, mas cheira-se cá. Na semana antes, a carne sobe de preço e há quem vá lá buscar o quinhão. Cá, a festa é mais pequena: um arraial na Capela, com sardinha assada e música do Zeca a tocar no saco-azul. Não há bodo sem ser o de lá, mas há o nosso — o das velhas a falarem de quem já não vem, o dos rapazes a beberem imperiais no balcão do Tasco.
Onde se dorme
Há uma casa para turistas. É a da Dona Amélia, que tinha os filhos em Lisboa e agora aluga quartos. Tem lençóis de linho e café da manhã com doce de abóbora. Quem fica lá fica porque se perdeu ou porque queria mesmo perder-se. À noite, quando se apagam as luzes, só se ouvem os grilos e o tractor do Adelino a aquecer para ir às três da manhã regar o tomatal.