Artigo completo sobre Pombal: o castelo com relógio de 1870 ainda a funcionar
Vila de Pombal ergue-se sobre o vale do Arunca com história militar, conventual e agrícola viva
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O som chega antes da imagem. Um tintinar seco, de ferro batido, que desce a colina e se perde entre os telhados de telha vermelha como quem chama à porta. Quem sobe a Rua Direita de manhã cedo — antes dos cafés abrirem as persianas — ouve o relógio do castelo bater oito ou nove e só depois repara que o sol já aqueceu a pedra das muralhas. É um barulho que mete conversa com quem passa, do tipo: "Estou cá há cento e cinquenta anos, posso contar-te a história toda."
Dizem que D. Afonso Henriques, por estas bandas, viu uma pomba branca pousar num carvalho e mandou logo construir uma vila. Pombarium, pombo, Pombal — pronto, ficou o nome. A verdade é que o castelo continua lá em cima, todo orgulhoso, a mirar o vale do Arunca como quem vigia a herdade. Do cimo, avista-se a Mata do Urso para norte (onde ainda há javali, se acreditares nos caçadores) e o Largo do Cardal para sul, onde a igreja matriz mistura manuelino com barroco como quem junta vinho tinto com água: parece estranho, mas resulta.
Desças a Rua de Baixo e o tempo desanda. No Convento de Santa Clara o silêncio é tão grosso que se corta com a navalha; na Capela de São Pedro o frio cola-se às costas como camisa molhada. O Pelourinho, esse fica no meio da confusão, entre varais com roupa a secar e o cheiro a alho a refogar que escapa das cozinhas ao meio-dia. É aqui que o miúdo da esquina te pergunta se queres ver a "casa onde o Aquilino vivia" — e, se disseres que sim, sobe contigo a rua abaixo como se fosse o próprio Ribeiro a mostrar-te a vila.
Migas, cabrito e o que ainda se come de pé
A cozinha de Pombal não é de gourmet, é de forno a lenha e de mãos que sabem amassar. As migas — pão de ontem, azeite a rodar, enchido grosso cortado à faca — comem-se de colher de pau e não se pedem tasting menu. O cabrito vai ao forno domingo sim, domingo não, e quando sai a pele estala como pastilha elástica de criança. Dos conventos vieram os pastéis de Santa Clara: massa fofa, recheio de ovos e açúcar, doçura que gruda aos beiços e nos fazem passar a tarde a lamber o dedo mindinho. A sopa de pedra, essa é engano: vem sem pedra nenhuma, só com feijão, chouriço e o segredo da avó — que ninguém conta, mas toda a gente copia.
Para beber, há vinhos de quinta pequena que o produtor traz ao mercado de sexta-feira em garrafões de três litros. Não têm rótulo, têm conversa: "Este ano choveu pouco, por isso está mais encorpado." Acompanha com queijo Rabaçal que se derrete na boca e deixa o sabor a ovelha a perder-se na garganta como boa ideia que não se diz em voz alta.
Entre o rio e a serra, onde o chão fala
O Arunca serpenteia lá em baixo, regando vinha e olival que mudam de cor consoante o mês — verde esmeralda em abril, dourado queimado em agosto. Na Serra de Pombal os trilhos são de chão vermelho e cheiram a eucalipto; o Trilho do Castelo sobe que se lhe farta, mas a recompensa é um banco de madeira e uma vista que até o pessoal do concelho ao lado inveja. A Pedreira do Avelino, essa é outra história: camadas de pedra empilhadas como fatias de pão de forma, cada uma conta um milhão de anos. Leva água, leva mochila e deixa o telemóvel no bolso — aqui o GPS engana e a pedra não perdoa.
Festa, procissão e o bodo que não falha
Em Julho o Bodo ocupa a vila inteira. Diz a lenda que no século XVI uma nuvem de gafanhotos comeu tudo o que era verde e o pessoal prometeu uma festa à padroeira se ela os salvasse. A promessa aguenta-se há quinhentos anos: foguetes às sete da manhă, touradas às cinco da tarde, barracas de vinho tinto a cinco euros o copo. Quem não gosta de multidão fica em casa; quem gosta, perde-se na confusão como quem entra no mar sem saber nadar. Em Setembro a Feira Franca traz os medievalistas de touca e gibão, vendem-se alguidares de barro e há sempre um espetáculo de fogo-de-artifício que o miúdo ao lado chora de medo mas depois quer ver outra vez.
O que fica no ouvido
Às seis e meia, quando o sol se põe atrás das ameias, o relógio do castelo dá as badaladas da hora. Não é música, não é sino — é ferro a bater em bronze, clang-clang, seco e direto, como quem te lembra que o dia acabou e ainda não marcaste mesa para jantar. Desces a colina com esse eco na cabeça e, quando chegas ao café, o António — sim, o da casa onde o Aquilino dormia — pergunta-te se já ouviste "o bater do senhor tempo". Dizes que sim, ele sorri, põe a bica em cima da máquina e responde: "Pois é. Amanhã volta, sempre à mesma hora. O relógio não mente, só nós é que sim."





