Artigo completo sobre Louriçal: feiras, dinossauros e moinhos de água
Vila ribatejana entre pegadas jurássicas, olivais DOP e moinhos que ainda rangem no vale do Lis
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O aroma a azeite novo bate-nos à porta da igreja logo às dez. Domingo de feira em Louriçal: o ouro do Ribatejo DOP está ali em cima das tábuas, ao alcance da mão, e o queijo Rabaçal ainda transpira o leite das cabras que acabaram de descer dos outeiros. O sino da matriz — aquele mesmo que os avós já ouviam — dá duas badaladas e cala as conversas. É sinal de que está na hora de o café encher de gente que se cumprimenta pelo nome próprio.
Louriçal é isto: um nome que sobra a loureiros e a calcário, uma vila que foi concelho até 1855 e ainda hoje parece esquecer-se de que deixou de ser. A igreja não deixa: dois corpos de nave, retábulos barrocos a faiscar à luz de umas velas que nem sempre são de devoção — muitas vezes são só para aquecer a conversa no adro. Lá fora, a lápide de 1599 guarda uma praga que ninguém conseguiu decifrar inteira; o musgo fez o resto.
Quando os dinossauros passavam aqui
A Pedreira do Avelino é um achado para quem gosta de ver o mundo antes de existirmos. As pegadas de terópode estão lá, bem visíveis, como quem deixou o sapato na lama e nunca mais voltou para o buscar. Há 150 milhões de anos isto era um campo de caça; hoje é um campo de milho com vista para a Mata Nacional do Urso. O cheiro a eucaliptal molhado lembra-nos que o tempo não é só pedra — também é terra que se transforma em pó no sapato.
O Ribeiro de Louriçal faz o que sempre fez: rodar as cinco rodas dos moinhos que o Trilho dos Moinhos liga num passeio de uma hora, dois se parar para conversar. O Moinho do Pego ainda mói aos sábados de verão, só para mostrar como se fazia pão quando o pão pesava mais do que a criança. A farinha quente cheira a sarampo de infância — quem prova, lembra-se.
O que se come (e bebe) por aqui
Leitão da Bairrada há em todo o lado, mas o ensopado de enguias é coisa que só corre bem no Lis. O segredo é o vinho branco que sobra do almoço e os coentros que crescem atrás da casa. Acompanha com broa quente e, se ainda couber, termina com fatias de Louriçal — doce de convento que cola aos dentes e faz querer água da fonte. Na Cooperativa, prova o azeite directo da talha: um trago frutado que arde na garganta como promessa de mais pão.
Julho é mês de Bodo: procissão, marchas, arraial e sardinha assada que se come de pé, com o prato na mão e o olho no fogo. No dia 11, o Círio de São Bento junta gente suficiente para encher o campo e deixar o pároco rouco. É fé, mas também é festa — e festa em Louriçal não se faz em silêncio.
Quando o sol se põe atrás do coreto — oferta de brasileiros que voltaram em 1923 — a sombra estica-se pelo Largo do Município e a azenha do Alvião continua a bater na mesma cadência de sempre. As pegadas dos dinossauros lá estão, o azeite continua a brilhar nos frascos e nós, entre uma e outra história, ficamos a saber que Louriçal não é lugar que se visita de passagem. É lugar onde se fica para o café seguinte.