Artigo completo sobre Redinha: onde os Templários plantaram olivais sagrados
Conheça Redinha, freguesia de Pombal (Leiria) com passado templário, olivais centenários e pedreira fossilífera no coração do Baixo-Mondego.
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O azeite novo escorre denso sobre a fatia de pão ainda quente, deixando manchas translúcidas na côdea escura. Na Quinta de Sant'Ana, o cheiro a lenha do forno mistura-se com o perfume verde das azeitonas acabadas de moer. É Novembro na Redinha, e os olivais que rodeiam a freguesia ostentam o tom prateado das folhas ao sol baixo. Ao longe, o sino da Capela de Sant'Ana marca as cinco da tarde — um toque curto, metálico, que ressoa sobre os campos ondulados do Baixo-Mondego.
Entre o castelo e a pedra jurássica
A história da Redinha confunde-se com a dos Templários, mas o que se sente é outra coisa. No adro da capela, a tília centenária projecta sombras que se movem com o vento do Mondego. A pedra calcária do portal tem marcas de dedos — centenas de anos de mãos que se apoiaram ao entrar. A imagem de Sant'Ana, dizem os mais velhos, foi encontrada por um pastor debaixo de uma azinheira. Hoje em dia, quem passa aos domingos pela capela ouve o coro dos anos 70 que ainda canta os cânticos em latim.
A sul, o Monumento Natural da Pedreira do Avelino é onde os miúdos da aldeia vão apanhar figos-da-Índia no Verão. As paredes de calcário têm pegadas de dinossauro que ninguém consegue ver, mas todos dizem que estão lá. Os peneireiros fazem ninhos nas fendas, e ao entardecer o céu enche-se de vultos negros que descem à pedreira como se fosse casa.
Peregrinos, lagares e ranchos
Os peregrinos param no Café Central para pedir água. O Zé, que lá está há 40 anos, oferece um café à borla a quem mostra o credencial. O carimbo da Redinha tem uma espiga e uma oliva, mas o que fica na memória é o cheiro do eucalipto queimado nos caminhos entre Pombal e aqui.
No fim-de-semana mais próximo de 26 de Julho, a festa de Sant'Ana começa com a missa das sete, quando o sol entra pelas janelas laterais e ilumina o altar. Depois, há sardinha assada no adro e vinho branco em jarros de barro. As crianças ainda fazem o peditório, mas agora cantam a loa com os telemóveis no bolso. O bodo em Maio é quando a aldeia inteira se junta na prça de lajes para comer cabrito e dançar o vira até de madrugada.
Mesa de azeite e lenha
O azeite da Redinha não tem DOP nenhum, é do quintal do Sr. António que tem 300 oliveiras e manda virar o lagar no moinho do Meiral. A morcela de arroz é da Maria do Carmo, que ainda usa o fumeiro do pai. O pão é do forno da aldeia, que abre às quartas e sábados — se chegares tarde, ficas sem. O bacalhau vai ao forno de lenha durante três horas, regado com azeite e vinho branco da garrafa de 5 litros que está sempre à mão. Para sobremesa, há tigeladas quando é festa, mas normalmente é apenas uma pêra do quintal.
Trilhos, vindimas e céu sem luzes
O trilho dos Templários sobe pelo caminho de lajes onde os velhos dizem que passavam os cavaleiros. A ecovia do Anços é onde os miúdos aprendem a andar de bicicleta, entre os moinhos abandonados que ainda têm a roda presa. Em Setembro, vindimar é ir para a adega do Zé Manel onde se bebe uva aos borratões e se come pão com queijo de ovelha. O lagar do Meiral funciona quando há azeitona suficiente — o cheiro fica-se pela aldeia toda durante uma semana.
À noite, não há candeeiros na estrada que liga Pombal à Redinha. O céu é tão negro que se veem os satélites a passar. Na Quinta de Sant'Ana, quando o vento vem do Mondego, traz o cheiro a sapal e a caniço. É este cheiro a terra molhada e a folha podre que fica na roupa quando se volta para casa.