Artigo completo sobre São Simão de Litém: entre pedreiras e caminhos antigos
Freguesia de Pombal onde o calcário jurássico conta milhões de anos de história sedimentar
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A pedra emerge da terra em camadas desiguais, blocos de calcário esbranquiçado que desenham uma paisagem vertical onde o musgo se agarra às arestas. São Simão de Litém estende-se por colinas onde a extração de pedra moldou não apenas a geografia, mas o próprio ritmo da vida — um ritmo pausado, medido pelo ruído distante das pedreiras e pelo silêncio denso que se instala ao fim da tarde, quando as máquinas param e só resta o chilrear dos pardais nos telhados de telha.
A freguesia distribui-se por 1607 hectares a uma altitude média de 233 metros, onde vivem 2358 pessoas numa densidade que permite respirar — 66 habitantes por quilómetro quadrado. É uma ocupação discreta do território, onde as casas se espalham entre pomares de pereiras e pequenos olivais, deixando amplos espaços vazios entre núcleos habitacionais. A população envelhece visivelmente: 895 idosos contra 224 jovens, uma desproporção que se nota nos rostos sentados aos umbrais das portas, nas conversas matinais junto ao Café Central, na lentidão dos passos pelas ruas estreitas que descem à Igreja.
Onde a pedra conta histórias
O Monumento Natural da Pedreira do Avelino constitui o coração geológico desta freguesia. Não é uma atração turística polida — é uma cicatriz na paisagem, um corte profundo na rocha que expõe milhões de anos de história sedimentar. As paredes verticais revelam estratos de calcário jurássico, fósseis marinhos incrustados na pedra, testemunhos de um tempo em que o mar cobria esta região. O vento circula no interior da pedreira abandonada, criando um eco oco que amplia o menor som: o bater de asas de um pombo-bravo, o deslizar de gravilha solta sob os pés. Quando se sobe ao miradouro improvisado, a aldeia aparece em miniatura lá em baixo, casas brancas pontuadas pela mancha verde dos pomares.
A localização de São Simão de Litém insere-a em dois percursos do Caminho de Santiago — o Caminho da Costa e o Caminho de Torres. Os peregrinos atravessam a freguesia em passadas constantes, mochilas às costas, seguindo as setas amarelas pintadas em muros e postes. Param no único café da aldeia para pedir água ou um café pingado, pergunta sempre pela "próxima vila com farmácia". Alguns pernoitam nas quatro moradias que oferecem alojamento, procurando o descanso antes da próxima etapa para Alvaiázere.
Sabores certificados do território
A gastronomia ancora-se nos produtos que a terra dá. O Queijo Rabaçal DOP chega às sextas-feiras de manhã, trazido por um produtor de Ansião que estaciona a carrinha junto ao café. O azeite é caseiro, engarrafado em garrafões de cinco litros que mudam de mão entre vizinhos — verde-dourado, com o travo amargo que faz ranger a garganta. A Pêra Rocha do Oeste DOP amadurece nos pomares entre agosto e setembro; durante a colheita, o chão fica coberto de peras partidas que exalam um aroma doce e alcoólico. No fim-de-semana, o forno a lenha da Zulmira aquece cedo para o pão de sementes que metade da aldeia encomenda.
A Festa do Bodo de Pombal, celebração que se estende ao concelho, traz movimento ocasional às ruas. É uma festividade de raiz solidária, onde a distribuição de pão e carne aos mais necessitados perpetua uma tradição medieval. O cheiro a carne assada impregna o ar, misturado ao fumo das fogueiras, enquanto as vozes se sobrepõem em conversas que ecoam nas fachadas caiadas. Aqui, o Bodo é sobretudo no domingo: depois da missa das 11h, o rancho do Clube de Caçadores toca marchas e o pessoal junta-se no campo de festas para comer sopa de pedra — cada um leva o seu ingrediente, como manda a tradição.
A luz da tarde poente incide oblíqua sobre os blocos de calcário empilhados junto às antigas pedreiras, aquecendo a pedra até ela libertar o calor acumulado durante o dia. É nessa hora que São Simão de Litém revela a sua essência mais nua: não há pressa, não há multidões, apenas a materialidade bruta da pedra e o peso silencioso dos anos sedimentados na paisagem.