Artigo completo sobre Alcântara: do império industrial ao reino do graffiti
Conheça Alcântara, a freguesia de Lisboa que trocou chaminés por arte urbana. História árabe, passado industrial e presente criativo no maior vale junto ao
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O ruído chega primeiro: o 28E que range na curva junto ao Largo do Calvário, o zumbido distante do ferry da Transtejo a cruzar o Tejo, a percussão metálica da porta do armazém 16 das Docas. Depois, o cheiro — café torrado do Fábrica Coffee no LX Factory que se mistura com o salitre que sobe da Doca de Recreio. Alcântara acorda sempre assim, entre camadas de som e aroma que se sobrepõem como a própria história da freguesia: moura, aristocrática, operária, criativa. Cada uma depositada sobre a anterior, nenhuma completamente apagada.
O nome carrega a memória de uma ponte que já não existe. "Al-qantara" — a ponte, em árabe — referia-se à travessia medieval sobre a ribeira de Alcântara, hoje totalmente subterrânea entre a Rua 1º de Maio e a Avenida de Ceuta. A ponte desapareceu quando a linha-cintura abriu em 1888, mas o vale continua lá, evidente na forma como as ruas descem 60 metros desde as colinas de Santo Amaro (altura média: 80m) até à planura ribeirinha (20m acima do nível médio do mar).
Onde a aristocracia deu lugar ao vapor
Até ao século XVI, isto era campo aberto — quase despovoado. Foi a aristocracia que descobriu o vale, construindo quintas e palácios nas encostas. O Palácio das Necessidades, iniciado em 1745 para o conde de Aveiro, passou a residência real em 1834 quando D. Maria II aí se instalou. Hoje, a fachada de 180 metros de comprimento em pedra de lioz impõe-se entre os prédios dos anos 1950 da Rua do Sacramento. A Capela de Santo Amaro, reconstruída após o terramoto de 1755, guarda azulejos de 1730 de Bartolomeu Antunes — os mesmos que estavam no antigo convento de Santo Amaro da Ajuda, demolido em 1907 para abrir a actual Rua de Santo Amaro.
O terramoto mudou tudo. A ribeira, com queda de 45 metros desde as Amoreiras ao Tejo, converteu Alcântara no primeiro distrito industrial de Lisboa. A Real Fábrica da Pólvora, fundada em 1725, empregava 600 operários em 1850. A Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, inaugurada em 1846, chegou a ter 3.000 trabalhadores — metade mulheres, vindas sobretudo de Santarém e do Alentejo. Foi aqui que Alfredo da Silva fundou em 1871 o que viria a ser o império CUF, com o primeiro armazém na Doca de Pedrouços.
A fábrica que se recusou a morrer
Os edifícios da antiga Companhia de Fiação, desactivados desde 1992, renasceram em 2007 como LX Factory. Caminhas pelo pátio central e o pé ressoa nas lajes de pedra originais de 1846; as paredes de tijolo vermelho conservam estênceis de "CFTL" visíveis atrás dos murais. A Livraria Ler Devagar ocupa a antiga tipografia where books climb 12 metros até ao tecto em estrutura metálica de 1908. A bicicleta suspensa é uma Rabeneick alemã de 1952, encontrada no porão do edifício. Ao domingo, o LX Market recebe 120 expositores — desde ceramistas do Alentejo a serigrafas de Marvila — e cerca de 15.000 visitantes quando o tempo ajuda.
Cataplana com vista para os cabos de aço
Nas Docas de Alcântara, os armazéns 7, 8 e 9 foram recuperados entre 1994 e 1998. No Armazém 8, o restaurante "Bica do Sapato" ocupa o espaço onde entre 1945-1980 funcionava a oficina de reparação de cabos da Companhia de Pesca. A cataplana de enguias do Rio & Mar serve-se exactamente onde estavam os guincho de 5 toneladas — os anéis de fixação ainda são visíveis no chão de madeira. A Ponte 25 de Abril, com 70 metros de altura no vão central, parece tocar-se da esplanada do Padrão — na realidade estão 1.300 metros de distância, mediidos ao longo da Doca de Recreio.
Subir para ver, descer para sentir
O miradouro de São Pedro de Alcântara, a 85 metros de altitude, oferece 180 graus sobre Lisboa. Do gazebo de 1898, vê-se o Castelo de São Jorge a 2,5 km em linha recta, o Convento do Carmo a 1,2 km, e o Tejo que brilha como uma lâmina horizontal. Os jardins, projectados por José Maria Jácome de Andrade em 1876, mantêm os buxos aparados em formas geométricas e os 9 bancos de ferro fundido originais — cada um pesa 380 kg e veio da Fundição Val d'Osne em França.
Descendo ao vale, a ciclovida marginal liga Alcântara a Belém em 3,2 km planos. O MAAT, inaugurado em 2016, ocupa a Central Tejo desactivada desde 1975 — os seus 15.000 m² de exposição estão dentro das antigas caldeiras de 1951. O Museu da Carris, na antiga estação de Santo Amaro desde 1998, expõe o eléctrico 1-20 da série original de 1901 que fazia o trajecto Praça Luís de Camões - Alto de São João. No Pilar 7, a 80 metros de altura, sente-se a vibração dos 150.000 veículos diários que cruzam a ponte.
Alcântara é ponto de passagem obrigatório dos Caminhos de Santiago: o da Costa (por Costa da Caparica), o Interior (Via Lusitana), o de Torres e o de Fátima. Na Igreja de Santos-o-Novo, o carimbo do albergue municipal regista entre 3.000-4.000 peregrinos por ano — muitos alemães e coreanos que chegam pela ponte aérea do Santiago Way.
O eco que fica
13.850 pessoas residem aqui (Censos 2021): 28% têm mais de 65 anos, apenas 15% têm menos de 25. Mas o que fica não é um número. É aquele instante em que, parado na Doca 7 às 18h30, ouves ao mesmo tempo o tilintar dos mastros dos iates suecos, o comboio 15206 da CP a passar na ponte às 18h42 como todos os dias, e, vindos do LX Factory, os primeiros acordes do concerto no Musicbox que começa às 19h00. Três sons de três séculos diferentes, todos reais, todos agora.