Artigo completo sobre União de freguesias de Santarém: capital gótica portuguesa
Trinta e cinco monumentos classificados no coração urbano ribatejano sobre o Tejo
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O vento chega do Tejo em rajadas lentas, carregado de humidade e de um cheiro vegetal — lama fértil, junco, a memória líquida de um rio largo. No Jardim das Portas do Sol, a luz da manhã rasga a neblina sobre a lezíria e projecta o vale inteiro como uma tela em tons de verde-palha e ocre. Lá em baixo, o Tejo serpenteia entre campos de sequeiro e olivais; cá em cima, a cidade assenta no seu planalto calcário a setenta e seis metros de altitude, firme como uma sentinela que nunca abandonou o posto. Trinta mil e dezassete pessoas vivem nesta união de freguesias que é, na verdade, o coração urbano de Santarém — um território onde trinta e cinco monumentos classificados se distribuem por ruelas estreitas, adros silenciosos e largos abertos ao sol.
A cidade que recebeu reis e leis
Antes de ser cidade, antes sequer de ser cristã, Santarém já era posição estratégica. D. Afonso Henriques tomou-a aos mouros em 15 de Março de 1147, depois de cerco de sete semanas. O nome — derivado de «Santa Iria», martirizada no século VII — carrega camadas de ocupação: romanos chamaram-lhe Scalabis, mouros Chamalbique. Foi aqui que, em 1254, D. Afonso III convocou as primeiras cortes com representantes das vila. O foral novo concedido nesse ano estabeleceu o regime de administração municipal que se espalharia pelo reino. Vila desde 1179, só recebeu foral de cidade em 9 de Junho de 1868. Quem caminha pelo centro histórico pisa, literalmente, sobre decisões que moldaram o país. A calcada irregular sob os pés não é decoração — é arquivo.
Quinze vezes Monumento Nacional
Há cidades que exibem um ou dois monumentos de referência. Santarém acumula quinze Monumentos Nacionais e dezasseis Imóveis de Interesse Público, o que lhe vale o título informal de «Capital da Gótica Portuguesa». A Igreja da Graça, mandada construir por D. Pedro Álvares Pereira em 1387, abre-se numa rosácea de pedra rendilhada cuja sombra, ao fim da tarde, desenha padrões no chão do adro como um relógio de sol caprichoso. A poucos passos, a Igreja de São João de Alporão — do final do século XII, com apoio da Ordem de São João — funciona hoje como Museu Municipal, onde se pode ver o sepulcro de D. Duarte de Menezes (m. 1464) e o único painel de azulejo hispano-árabe da cidade. Na Igreja de Marvila, os 1587 azulejos quinhentistas revestem as paredes com a frescura de um azul que resiste ao tempo sem perder saturação. A Torre das Cabaças, construída em 1601 como parte do sistema de abastecimento de água, ergue-se com os seus oito potes de barro no topo — as «cabaças» que lhe dão nome — e marca as horas com uma presença quase corpórea. O Convento de São Francisco, onde morreu D. Pedro de Alenquer em 1499, o antigo Paço Episcopal (séc. XVIII), a Igreja do Santíssimo Milagre (século XVI), a Capela de Nossa Senhora do Monte (século XVII): cada esquina revela outro frontispício, outra porta de pedra lavrada, outro silêncio sagrado. Vários destes monumentos encontram-se em obras de requalificação desde 2022, o que significa andaimes aqui e ali — mas também significa que alguém está a cuidar deles.
O miradouro e o caminho
Do Penedo da Saudade — onde D. Pedro I teria esperado por Inês de Castro em 1355 — o olhar alcança uma das vistas mais amplas sobre o vale do Tejo em Portugal continental. O rio desenha-se prateado ao longe, e nos dias claros distinguem-se as margens verdejantes da lezíria até onde a vista se dissolve na bruma. É por este planalto que passam dois traçados de peregrinação — o Caminho Interior, também chamado Via Lusitana, do Caminho de Santiago, e o Caminho de Fátima. Peregrinos com mochilas e conchas cruzam o centro histórico a passo cadenciado, misturam-se com os moradores que saem das padarias com sacos de papel quente nas mãos. A cidade está habituada a receber quem chega a pé: sessenta e nove alojamentos, entre apartamentos, hostels, moradias e quartos, garantem cama e duche sem complicações logísticas.
Enguias, borrego e o terroir do Tejo
Santarém senta-se à mesa com autoridade ribatejana. A caldeirada de enguias do Tejo, pescadas em Abrantes e em Escaroupim, chega em panelas de barro com um caldo denso, acobreado, que cheira a louro e a pimentão. O ensopado de borrego da Beira, que se cozinha durante três horas, parte-se à colher, e as migas com espargos trazem o campo directamente ao prato. Na pastelaria, as queijadas de Santarém — inventadas no Mosteiro de Almoster em 1548 — e o toucinho-do-céu prolongam a tradição conventual que tantos mosteiros e igrejas alimentaram — literalmente. A região vinícola do Tejo oferece brancos frescos, rosés de cor salmão e tintos encorpados que acompanham tudo isto sem competir. Nos rótulos e nos mercados, cruzam-se os Azeites do Ribatejo DOP — frutados, com um travo ligeiramente picante na garganta —, a Carnalentejana DOP e a Pêra Rocha do Oeste DOP, que aqui se come madura, com o sumo a escorrer pelo queixo.
Calcário, rio e asas
Para lá da muralha urbana, a paisagem abre-se em duas direcções. A sul, o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros guarda maciços calcários, grutas e trilhos pedestres por entre formações rochosas que a água esculpiu durante milénios. A sul-oeste, o Monumento Natural da Pedra da Mua preserva pegadas de dinossauro impressas em lajes de calcário — um lembrete de que este território já era habitado há 129 milhões de anos. Junto ao Tejo, passeios ribeirinhos e ciclovias acompanham o rio, e a Zona de Proteção Especial permite observação de aves: garças, cegonhas, pilritos que pousam nas margens lodosas ao entardecer.
Ao fim do dia, quando a luz alaranjada desce sobre os telhados e as cabaças de barro da Torre recortam a sua silhueta contra o céu, há um som que persiste — o grasnar distante das cegonhas nos seus ninhos enormes, misturado com o murmúrio do Tejo lá em baixo. É esse o som que se leva de Santarém: não o silêncio de uma cidade-museu, mas o rumor vivo de um lugar que continua, teimosamente, a acontecer.