Artigo completo sobre Castelo Branco: onde os templários moldaram a pedra
A cidade da Beira Interior que guarda oito séculos de história entre muralhas e ruelas medievais
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O sino da Sé bate as nove e o eco desce pela Rua de São Miguel, raspa nas esquinas do granito e morre no Largo da Sé, onde o café A Brasileira abriu portas em 1924 e ainda serveu o bica a 80 cêntimos em 1999. Há um cheiro a café torrado que se escapa para a rua e a luz de inverno — rasa, quase horizontal — desenha sombras longas nas pedras gastas do pavimento. Castelo Branco acorda sem alarido, com a serenidade de quem sabe que o foral de 1213 lhe deu carta de cidade antes de Coimbra ter universidade e não precisa de gritar para se fazer ouvir.
Subir ao castelo é o primeiro gesto instintivo. A encosta íngreme obriga a abrandar na Rua do Arco, onde o número 15 guarda a porta gótica do antigo Paço dos Távoras, e esse ritmo forçado é, talvez, o melhor guia possível. No topo, onde os templários ergueram muralhas sobre o castro lusitano de pedra clara — Castra Leuca, como lhe chamaram os romanos que aqui exploraram ouro no século I a.C. —, o vento sopra sem obstáculo. Daqui, vêem-se os telhados de telha de Marselha da zona velha, o pórtico manuelino da Misericórdia (1520) e os planaltos ondulados da Beira Interior, que se estendem até à Serra da Estrela a 50 km. A sensação térmica muda em poucos metros: o sol aquece a face, mas o vento corta logo a seguir, lembrando que estamos a 386 metros de altitude e a 120 km do mar mais próximo.
O labirinto que os templários deixaram
É no emaranhado de ruelas que desce do castelo que se percebe como o traçado medieval sobreviveu ao terramoto de 1755 e às obras da década de 1980. As passagens são tão estreitas que dois guarda-chuvas abertos não se cruzam, e as paredes — caiadas de branco, com rebordos de pedra — guardam uma frescura húmida mesmo nos dias de calor. A Sé, erguida entre 1527 e 1556 sobre uma igreja românica, exibe esse cruzamento raro entre o gótico tardio e o manuelino que marca tantas igrejas da Beira, enquanto a Misericórdia, reconstruída após 1600, impõe uma fachada barroca onde a talha parece querer saltar da pedra. A Torre do Relógio, que serviu de prisão entre 1625 e 1834, permanece como coluna vertebral do centro antigo — compacta, sólida, 33 metros de altura num tecido urbano que raramente passa dos três andares.
Mas o verdadeiro espanto está nos Bordados. A tradição diz que vieram com os judeus expulsos de Castela em 1496, e a influência oriental salta à vista: motivos florais estilizados, cores vivas sobre linho cru, uma paciência de meses condensada em cada colcha. No Museu de Francisco Tavares Proença Júnior — instalado no antigo Convento da Graça desde 1918 —, as peças expostas incluem a colcha de 1789 que D. Maria I ofereceu ao bispo D. José de Jesus Maria, mas é diante dos écrans que mostram Alice Lopes (n. 1934) a bordar que o visitante percebe que este ofício ainda tem dezenas de mulheres activas na cidade. Não é por acaso que a primeira tipografia da Beira Interior funcionou aqui em 1554 — há uma relação antiga com o detalhe, com o ofício de fixar coisas no tecido ou no papel.
Estátuas que olham para os continentes
O Jardim do Paço Episcopal é um dos maiores jardins barrocos do país, e entrar nele é atravessar um portal para 1725. As escadarias de granito conduzem a patamares sucessivos onde 58 estátuas representam os continentes, os reis de Portugal, os santos e as estações do ano. A água corre por tanques e bicas, e o som — um murmúrio constante, quase subliminar — altera a acústica do lugar. A luz filtra-se pelas copas dos cedros plantados em 1887 e projecta manchas douradas sobre o musgo que cobre os degraus. O Paço, construído entre 1718 e 1725 para D. João de Sousa, é hoje o Instituto Politécnico de Castelo Branco desde 1985, mas é no diálogo entre o edifício e o verde que se encontra a verdadeira eloquência.
Cabrito no forno de lenha e vinhos de altitude
A mesa castelobrancense é de uma franqueza desarmante. O cabrito da Beira IGP, assado no forno de lenha durante três horas até a pele estalar, chega à mesa com o aroma a brasa e a alecrim ainda vivo — o restaurante O Pipo, na Rua de Santo António, serve-o desde 1976. O bacalhau à lagareiro, generoso em azeite da Beira Baixa DOP, brilha no prato com uma gordura dourada que convida a molhar pão do ciclista, pão que aqui se faz desde 1958 com farinha da região. As sopas de cação — que em Castelo Branco levam couve-galega e não couve-portuguesa — e o ensopado de borrego pertencem ao território dos pratos de conforto, daqueles que aquecem quando o planalto se cobre de nevoeiro entre Outubro e Abril. E depois vêm os queijos — o Queijo Serra da Estrela DOP, que chega fresco às sextas-feiras às 7h ao Mercado Municipal, e o requeijão que ainda se faz nas aldeias da Serra da Gardunha. Nos doces, as filhós de abóbora da Taberna do 2º, que abriu em 2018 mas usa a receita da avó da dona, e os bolinhos de azeite da pastelaria Mexicana, aberta desde 1946 na Rua da Misericórdia. Os vinhos da Beira Interior — sobretudo os brancos feitos à 700 metros de altitude na Quinta dos Termos — têm uma acidez fresca que corta a riqueza dos pratos e pede sempre mais um copo.
Caminhos que cruzam geoparques e rios
Castelo Branco é ponto de passagem do Caminho Interior da Via Lusitana rumo a Santiago, e os peregrinos que aqui param encontram 17 albergues e pensões — desde o de 8€ no antigo seminário até aos 45€ do Hotel Rainha D. Amélia, instalado no edifício onde em 1927 nasceu o primeiro rádio da região. Mas há razões para ficar. O Parque Natural do Tejo Internacional, a 20 km, protege 154 espécies de aves — desde o abutre-do-egito ao milhafre-real — cujas silhuetas se recortam contra o céu limpo. O Geopark Naturtejo, reconhecido pela UNESCO em 2006, revela trilobites de 480 milhões de anos nas camadas do Ordovícico. E a Serra da Gardunha, a 15 km, ofereve trilhos onde o silêncio é tão denso que se ouve o próprio pulso — e onde em Março a cerejeira florida transforma a aldeia de Alcongosta num espectáculo rosa.
Em Maio, a Festa da Nossa Senhora dos Altos Céus — que remonta a 1755 quando a imagem sobreviveu ao terramoto — enche as ruas de procissões e arraiais. Em Setembro, a Feira de São Miguel — com foral de 1213 e renovado em 1510 — ocupa o parque de campismo com 250 expositores e mantém a tradição do "ferro de São Miguel", ferro de engomar que aqui se compra há séculos. E na Semana Santa, as ruas cobrem-se de tapetes de serradura colorida que duram apenas horas antes de serem pisados na procissão das 6h da manhã — uma arte efémera que resume bem o espírito do lugar.
A última imagem que fica, ao partir, é a das estátuas barrocas do Jardim do Paço, com o musgo a subir-lhes pelos tornozelos de pedra, voltadas para continentes que nunca hão-de visitar — e, ainda assim, com uma serenidade inabalável no rosto, como se soubessem que esta cidade de 34 455 habitantes continua a fazer bordados com os mesmos pontos há 400 anos e que isso basta.





