Artigo completo sobre Cebolais de Cima e Retaxo: onde o granito guarda memórias
Capela dos Altos Céus, talha barroca e olivais junto ao Tejo Internacional
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O sol de setembro queima os ombros enquanto se sobe a Capela dos Altos Céus. O caminho é de terra batida, xistosa, que escorrega sob as solas. Lá em baixo, nas searas que o Tejo corta, as oliveiras parecem feitas de prata viva quando o vento lhe dá na folha. São 352 metros de altitude, mas chegam para ver o Portugal espanhol nas tardes límpidas e para sentir o ar da serra a descer gelado pelas ravinas. Cebolais de Cima e Retaxo juntaram-se no papel em 2013, mas quem cá vive continua a dizer "vou ali a Retaxo" como quem vai à porta de casa.
A pedra que faz mossa à mão
Dentro da igreja de Cebolais, o dourado do altar parece que ainda está a pingar. Entra-se pela porta lateral, que range no sítio, e o cheiro a incenso antigo agarra-se ao casaco. As velas acesas aquecem o ar, fazendo ondular as sombras nas paredes caiadas com cal. Em Retaxo, a igreja é mais baixa, mais escura, e o portal manuelino tem uma rosa dos ventos que os miúdos tentam decifrar com a ponta do dedo. Nas paredes exteriores, ainda se vêem buracos de bala — contam que foram os franceses, em 1810, que andaram à procura de ouro que não havia. A ponte medieval na ribeira da Pracana tem uma pedra com uma cruz, onde se diz que os arrieiros paravam para agradecer chegarem vivos de Espanha. Hoje passam lá os peregrinos do Caminho Interior, mas vão tão cansados que nem reparam na marca dos séculos.
O pão que leva três dias
No forno da aldeia, António acende às cinco da manhã. O pão vai à madeira de sobreiro, que queima devagar, e a massa leveda dentro de panos de algodão que foram da mãe dele. Quando abre a aba, o calor bate na cara como um murro. O azeite é outra história: nas primeiras semanas de novembro, as mulheres apanham as azeitonas no cesto de vime, escolhem-as no lagar, e o líquido que sai espesso tem gosto a pimenta e a folha de figueira. A chanfana leva vinho da Terras de Belmonte, o cabrito que pastou nas giestas, e faz-se na panela de barro que a avó guarda debaixo da cama fora da época. O queijo não é Serra da Estrela — é de leite de ovelha beira, feito na panela de cobre, curado na arca de madeira onde se punha o pão de milho. O doce de ovos vem-lhes do convento desaparecido de Manteigas, que a tia-avó aprendeu com uma freira fugida: leva açúcar mascavado, e quando está pronto parece que o sol se agarrou à colher.
Onde o grifo te olha de frente
O trilho dos Carrascais começa atrás da igreja, onde o cão do café vem farejar as botas. Sobe-se entre azinheiras que fazem bolotas do tamanho de moedas, e o chão estala como vidro. A meio da encosta, um xisto debruçado serve de mesa para quem traz sandes de presunto. Lá em cima, o vale abre-se inteiro: o Tejo parece um fio de prata, e se tiveres sorte o grifo passa a menos de dez metros, tão perto que se vê o olho amarelo. Não é mito: nidifica nos penedos da Gardunha, e os pastores dizem que leva cordeiros aos três dias. No outono, os medronheiros vermelhos atraem os melros, e o ar cheira a esteva pisada que fica nos dedos do pé.
O dia em que as aldeias têm cheiro a fumo
A feira de São João começa às cinco da manhã, quando os primeiros camiões de porcos chegam de Vila de Rei. Há fila para o café, e o pastel de feijão sai quente do forno ainda escuro. As mulheres de Retaxo trazem os ramos de louro em cestos de verga, e o vinho tinto corre de garrafões de cinco litros que ninguém pergunta de onde vêm. Em setembro, a procissão sobe a pé descalço para cima da capela: os andores pesam uma tonelada, e os homens trocam de ombro a meio da ladeira. Quando descem, cantam "Ó Altos Céus, levai-nos com vós", e a voz perde-se no vale como se fosse fumo. No Entrudo, as máscaras são de cabeças de papelão pintadas com tinta de óleo, e os rapazes de Cebolais vão a Retaxo atirar farinha às janelas. Ninguém se zanga — é sinal que o ano vai ser bom.
Quando o sol se põe atrás da Serra da Estrela, o sino da igreja toca sete vezes. O som demora a chegar, abafa-se nas oliveiras, mas as crianças ainda correm para casa quando o ouvem. É o mesmo bronze que marcou o nascimento dos avós, o mesmo que vai tocar no dia em que já cá não estivermos.





