Artigo completo sobre Escalos de Baixo: onde o Ponsul dita o ritmo da vida
Freguesia do azeite e da pedra antiga, entre lagares centenários e capelas que guardam memórias
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O azeite novo escorre na fatia de pão que a Ana tirou do forno às cinco da manhã, deixando um rasto translúcido que cheira a hortelã-pimenta. No lagar do Zé Mário, o cheiro a azeitona esmagada entranha-se nas roupas — quem passa por lá leva o aroma nos casos durante dias. Lá fora, o sol de Outubro aquece as oliveiras que sobem a encosta — troncos que parecem braços a contorcer-se para o céu, terra ocre que se agarra às solas das botas. Escalos de Baixo acorda devagar, ao ritmo dos açudes do Ponsul e do sino da igreja de S. Silvestre que o padre toca às tantas quando se esquece da hora.
Marcos na terra árida que floresceu
O topónimo aparece em 1214 como "Esqualos", numa doação de D. Afonso II aos Templários. O pessoal mais velho diz que vem dos marcos romanos que se encontravam lá para cima do Monte do Jogo; os mais novos acreditam que é dos terrenos que antigamente não davam nada — squaléos, dizem os livros. Hoje, os 4609 hectares produzem azeite que os franceses compram por preços que fazem o Zé Mário rir-se para dentro da barba. Entre a Munheca e Belgais, ainda se encontram pedras com sulcos que os antigos dizem ser das minas romanas que aqui tiraram ouro. No Monte de S. Luís, a 470 metros, há pedras com riscos que ninguém sabe bem o que significam — os miúdos chamam-lhes "as casinhas dos mouros".
A Igreja Matriz de S. Silvestre tem um retábulo que o sacristão limpa com água de rosas todos os anos antes da festa. A Capela de S. Sebastião, a 20 de Janeiro, enche-se de gente que traz os pães para bênzer — os mesmos pães que depois se partem na praça, com manteiga e açúcar. Dizem que em 1807 foi o nevoeiro que salvou a aldeia das tropas napoleónicas; os mais cépticos dizem que foi o medo de se perderem nos caminhos de terra batida. A Capela de Nossa Senhora dos Altos Céus fica no cimo do monte — quem sobe a pé no segundo domingo de Maio leva os sapatos cheios de pó branco, mas ganha um vista que chega ao Tejo.
Pão, azeite e o som da água
O chafariz de duas bicas, lá no centro, ainda tem água mais fresca que a do poço da minha avó. Antigamente, ia-se de burro até Castelo Branco com cântaros cheios — hoje, quem passa leva garrafões de cinco litros que enchem o porta-bagagens dos carros. Ainda se vêm mulheres a lavar a alface no lavatório, falando alto sobre quem casou com quem. Os espigueiros de xisto, aqueles que sobreviveram ao tempo, guardam agora mais fotografias antigas que milho — mas o cheiro a palha seca mantém-se nas ripas de madeira.
A cozinha aqui não precisa de receitas escritas: o azeite é o que o olival da casa dá, o queijo vem da Serra na mochila do primo que lá vai buscar leite para fazer o requeijão. O cabrito vai ao forno de lenha da padaria quando o Nuno tem tempo — leva alecrim que se arranca do chão seco junto à estrada. Nos dias frios, a sopa de tomate leva ovos da galinha da vizinha; nas feiras de Outubro, o porco preto é cortado na mesa da cozinha, com a faca de serra que o pai afia desde 1972. O pão de testo faz-se na frigideira de ferro da avó — crocante por fora, mole por dentro, perfeito para molhar no azeite que ainda fuma.
Entre o Ponsul e o Tejo Internacional
O Ponsul desenha curvas que mudam com as cheias — quem cresceu aqui sabe que depois de Outubro é melhor não confiar nas pedras aparentemente secas. Os moinhos de azenha, os que ainda têm telhado, servem agora de abrigo para os encontros dos rapazes — dali saem garrafas vazias e cheiro a tinta de spray. A Ponte da Munheca, com aquele arco que parece saltar para o ar, foi onde o Tiago aprendeu a andar de bicicleta sem mãos — a pedra está lisa de tantas vezes que lá se andou de trotinete.
O trilho que sobe ao Monte de S. Luís começa logo depois da curva onde o Zé plantou os sobreiros novos — são trinta minutos a puxar o ar, com paragem obrigatória na Fonte Santa. A água tem aquele cheiro a ovo podido que as velhas dizem curar a psoríase; os miúdos dizem que é mentira, mas lá vão todos lavar as mãos sujas de terra. A estrada para a Mata passa pela herdade onde o avô do Rui fazia aguardente — ainda se encontram pipas de carvalho a apodrecer entre os matagais.
Na noite de Reis, os rapazes fazem-se de homens com aquelas máscaras de papel maché que a avó da Cátia prepara desde Novembro. Vão de casa em casa, com as vozes mudas de tanto cantar, pedindo o dinheiro que depois se gasta em vinho tinto no bar do Lopes. O fumo sobe das chaminés como lençóis brancos — cheira a lenha de sobreiro e a chouriça que o António ainda fuma na cave da casa onde nasceu.